Liceu Literário Português - Semântica - André Conforte

 Trabalho Final de Semântica



Questão 2:  

O texto do colunista José Pacheco Pereira é constituído apenas por discurso relatado, direto, de heterogeneidade marcada por aspas e travessões, ainda que as falas não sejam introduzidas por verbos dicendi. Apesar da construção somente em aspas soltas, aparentemente sem nenhuma conexão, os trechos se entremeiam pela semelhança temática do discurso. Trata-se de enunciados característicos da corrupção cotidiana, que ocorrem dentro e fora da arena política institucional, ainda que essa corrupção seja estrutural e instituída  na sociedade portuguesa. 

Embora não haja elementos de coesão articulando os diálogos, a textualidade é estabelecida pela coerência dos discursos relatados, de modo que todos estão inseridos no mesmo plano temático e apresentam valores referentes a uma mesma ética. A compreensão do contexto é facilitada ainda pelo título do texto, por meio do qual o autor anuncia o que ele entende ser o padrão de comportamento dO tecido econômico e social português, e pela imagem da grande teia de aranha ilustrando a coluna, sob a legenda “O ruído do mundo”.

Tais artifícios igualmente revelam a versatilidade do escritor ao se apropriar também da heterogeneidade de gêneros, já que se mantiveram presentes o trecho inicial de destaque, próprio de artigos de opinião, bem como o destaque de outro trecho no meio do texto - ambas forma de chamar a atenção do leitor diante do gênero que se inclui entre publicações jornalísticas. Além disso, veja que as aspas, comumente utilizadas para apontar a fala literal, o discurso direto, também funcionam para criar o chamado efeito de verdade, ou seja, o que está dito foi assim dito pelo seu emissor, sem espaços para interpretações equivocadas ou meias verdades. Então o resultado final é um artigo de opinião que pode ser lido como uma crônica e que possui características de reportagem ou editorial por se afastar da subjetividade por meio das aspas.  Esta visão de distanciamento busca desfazer quaisquer arbitrariedades que se queiram imputar ao autor. Antes traz “realidades” que comprovam por si mesmas o cenário de difusa corrupção que se pretende relatar. Se um discurso é sempre a materialização de uma ideologia, como explica Bakhtin, o funcionamento da coluna se dá ao utilizar os discursos em recorte para exemplificar uma determinada ideologia a que se pretende criticar. 

Ao selecionar os atos de fala, o autor relata não somente um enunciado, mas uma situação de enunciação (DUARTE apud CONFORTE, 2018), sobre a qual - ou as quais - faz claro juízo de valor, fazendo de seu texto uma crônica da vida portuguesa, sob forte tom crítico e carregada de ironia. Nesse sentido, o discurso direto já se torna um relato que vem acompanhado das intenções do autor, que não se isenta, nem pretende fazer uma apresentação ingênua dos discursos proferidos por outrem, mas representá-los em seu texto próprio, empregando-os em favor da defesa de seu ponto de vista, de sua denúncia. O colunista se posiciona ainda ideologicamente, ao elencar circunstâncias que denotam desfavorecimento da esquerda, dos comunistas, como assim se referem alguns enunciadores.

A ausência de verbos dicendi introduzindo as aspas é justamente o fator responsável pelo efeito polifônico que o autor pretende causar, como se fossem várias vozes compondo a teia, causando a sensação de ruído, tal como denunciam a figura e sua legenda. A teia representa as relações do tecido social português estabelecida também nas trocas de favores, cena recorrente nas enunciações  colocadas. Contudo, Pacheco Pereira ainda tenta organizar sua apresentação ao ordenar com números cada uma das situações. 

O elemento da intertextualidade também fica por conta do leitor, que deve estabelecer suas próprias conexões, reconhecendo, na teia social, quem seriam os agentes daqueles discursos. Nesse caso, não há necessidade de dizer quem proferiu os enunciados, hipotéticos ou não, eles são característicos de personagens conhecidos das repartições públicas, do poder legislativo, do governo, do judiciário e de qualquer pessoa que tenha acesso a uma dessas esferas ou sofra com síndrome do pequeno poder e queira se aproveitar de alguma situação para garantir um benefício, pedir um favor ou gastar o dinheiro público em causas particulares. Há situações de abuso de autoridade, mau uso da verba pública com obras mal feitas, economia de asfalto e compra do silêncio de engenheiros; uso indevido do dinheiro da tia; compra de perfis falsos para propagação de fake news; empregos arranjados; consumo de bebidas caras com dinheiro da arrecadação de impostos, entre outras corrupções cotidianas. O efeito polifônico é acentuado ainda pela distância entre a personagem que entende que deve dar um dinheiro a mais para o Alfredo porque ele facilitou-lhe um serviço isento de nota fiscal (item 5), ou aquela que aumenta sua receita mensal na agência do Frederico para falar mal de restaurantes no Facebook (item 7), e as personagens que comemoram um negócio bebendo Moët & Chandon com dinheiro do governo (item 10) ou o Jaime, que passa férias no Algarve (item 16). Entretanto, embora haja uma gradação de nível e posição social, um cidadão comum protagoniza atos de corrupção assim como o ex-ministro Sócrates.

Quanto ao cenário político-ideológico, o autor do texto faz questão de elucidar a tensão entre a esquerda e a direita, mencionando termos como socialista, comunista, Bloco de Esquerda, sindicatos e o Chega, partido de extrema direita, declarado como um partido que rouba.

Portanto, de maneira muito simples, sem recorrer a elementos coesivos ou verbos dicendi com carga semântica opinativa, José Pacheco Pereira se posiciona, tece críticas e explora o potencial polifônico empregando o discurso relatado  como forma de heterogeneidade enunciativa (CONFORTE, 2018).




Questão 3



Para construir a letra da música “Acrilic on Canvas”, Renato Russo articulou a sobreposição de duas isotopias: a isotopia dos amantes, tematizada pela frustração de um amor que não aconteceu, revelada em noções abstratas referidas por lexemas como saudade, promessas, jurar, triste, desculpas, traição, sofrer e o semema “nós dois”, e figurativizada em palavras como lençóis, quarto, lágrimas, cabelos, batom, que sugerem a relação entre um homem e uma mulher; e a isotopia das artes plásticas, cujas figuras - desenho, traços, cores, tintas, misturar, luz e sombra, armação, madeira, paleta e cavalete, óleo de linhaça, talhar em estiletes, pontos de fuga, rabiscar, pintar - remetem ao tema da idealização, da construção de algo que só seria possível no plano artístico, mas inviável no plano afetivo. A abstração do tema sentimental é figurativizada na isotopia da arte e a idealização de uma outra realidade é exposta na pintura, na imagem da flor amor-perfeito, cuja revelação se dá ao final da música.

Temos então dois eixos temáticos que se cruzam do ponto de vista do eu-lírico, um sujeito que demonstra sentimentos de perda do amor e de culpa por suas falhas e transfere suas desilusões para um quadro. A figuratividade icônica da cena da produção artística está representada pelo caráter visual da música, pelo significado de cada palavra pertencente ao campo semântico da arte e pela presença dos atores e ações, ainda que num tempo passado ou ilusório. Na isotopia temática do romance, são dois atores principais, na isotopia figurativa da arte, temos apenas um ator em sua solidão.

A interpretação do texto é dada pela progressão semântica, na qual o autor conta aos poucos a sua história e causa do seu sentimento de frustração e tristeza. Aos poucos ele revela o que o levou a este estado, soltando palavras que nos levam a crer que ele mesmo é o responsável por sua condição. Ao final da música, o ouvinte termina sua experiência sonora com uma visão diferente, agora conhecedor de uma história, ainda que de maneira superficial. Enquanto vai narrando os passos da elaboração de sua obra de arte, o personagem deixa escapar parte do que viveu e deixou de viver com sua amada. Assim, o compositor entrelaça temas e figuras na construção de uma unidade de sentido. A noção de unicidade nos é essencial aqui, como postulou Greimas, pois assim é possível destacar mais de uma isotopia em um texto homogêneo. O compositor realiza este trabalho com inteligência ao utilizar de elementos como o cabelo da mulher, as lágrimas e a madeira da casa para moldar as ferramentas necessárias - tinta a óleo, pincel, quadro -  para elaborar sua obra, articulando com facilidade os temas e figuras. O autor tem o trabalho não só de artista, mas de artesão. Assim, o ouvinte da canção apenas aprecia e usufrui da obra pronta.

Contudo, diante do contexto paradigmático, é necessário que haja um conhecimento de mundo para compreender o tema central, que já é exposto logo no título da canção (que quer dizer em língua inglesa acrílica sobre tela), compreensão tal que é constituída culturalmente por meio de vivências e acúmulo de saberes. Renato Russo demonstra grande conhecimento do mundo das artes plásticas e exige isso também do ouvinte de sua canção, que deve ter conhecimento do léxico correspondente ao tema. 

A isotopia, por sua vez, é produzida pelo contexto sintagmático, o qual “permite reter das unidades de conteúdo apenas os elementos compatíveis entre si, operando, dessa forma, uma seleção discursiva (ou local) necessária e tornando, assim, possível, discursivamente, a homogeneidade dos temas e figuras.” (LARA, 2016, p. 1294). Desse modo, o compositor acerta em articular a isotopia de seu sentimento à isotopia artística em toda sua figuratividade, pois é esta a responsável pela homogeneidade e pela coerência semântica da música, fazendo desta não apenas um amontoado de palavras, temas e figuras, mas uma obra que articula tais elementos e se constitui em um texto composto em uma unidade de sentido.





Referências Bibliográficas


CONFORTE, André. Discurso relatado: outras polifonias. In: SIMÕES, Darcilia (Org.). Semiótica, pesquisa e ensino. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2018.


LARA, Glaucia Muniz Proença. A produtividade da noção de isotopia na construção de sentido do texto. Seminário de tópico variável em análise do discurso: noções básicas de semiótica do discurso, 2016.


NOGUEIRA, Fernanda Ferreira Marcondes. Isotopia temática e figuratividade em "Eis os amantes" e "Intradução" de Augusto de Campos. Estudos Semióticos, Número 3, São Paulo, 2007.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Prática Docente II - O direito da pessoa com deficiência às salas de aula regulares - 2010.1

Resenha de filme - Vestido de Noiva 2010.1

Prática Docente II - Integração x Inclusão dos portadores de deficiências em sala de aula 2010.1